Fernando Curi Peres

A RELEVÂNCIA DA DICOTOMIA ESQUERDA DIREITA

No Brasil os termos esquerda e direita têm sido mal utilizados por diversas razões. O cientista político Bolivar Lamounier inclui, entre elas, até a superficialidade do conhecimento de alguns grupos ideológicos. Quaisquer que sejam as causas do mal uso da dicotomia, é bom que fique um pouco mais claro o que os conceitos significam atualmente. Lembrando o inesquecível Paulo Francis, quando dizia que ‘o Brasil era o único país do mundo onde as esquerdas ainda levavam o comunismo a sério’, é possível indicar algumas características comuns à maioria dos pensamentos de grupos denominados de esquerda. Estamos falando de indivíduos sérios, no sentido de acreditarem em um conjunto de princípios e regras de ações públicas que julgam que melhoraria a vida dos grupos sociais que os adotassem. Da mesma forma, as crenças em um conjunto de princípios e valores alternativos valem para os grupos denominados de liberais, termo aqui usado porque o conceito de “direita” foi politicamente deturpado à ponto de, praticamente, inviabilizar seu uso sem associações pejorativas.

Algumas características são comuns aos pensamentos do grupos autodenominados de esquerdistas:

(i) acreditam que as organizações de governos devem ter um papel preponderante tanto na indicação quanto na alocação econômica dos recursos primários da sociedade – recursos humanos, físicos, financeiros e naturais – e, acima de tudo, que

(ii) as pessoas devem, ou precisam, delegar a um(alguns) sub-grupo(s) da sociedade, especialmente a um ou alguns partidos e de forma mais ou menos definitiva, o direito de escolher e implementar as ações públicas que julgam melhor para a sociedade.

Os liberais, por seu lado, acreditam que as escolhas sociais e políticas devem ser feitas por todos os indivíduos que compõem as populações, tanto por delegação representativa por prazo determinado, por meio do voto livre e universal, e que a melhor alocação dos recursos primários da sociedade deve ser feita pela iniciativa privada e que o principal papel dos governos é garantir a propriedade e a igualdade das condições competitivas entre os indivíduos. O critério fundamental deve ser a meritocracia, desde que assegurada a condição competitiva entre as alternativas de desenho e ações políticas. É claro que os processos de escolha sociais são mais caros e mais demorados em geral em situações não autocráticas, mas a livre discussão, entre as visões alternativas, é vista como mais que compensadora na produção de soluções aceitáveis pelas sociedades. O constante debate entre as duas visões alternativas – a liberal e a esquerdista – tende a gerar soluções superiores quando feitas em regimes verdadeiramente democráticos.

Com as dificuldades de controle pela população dos atos e ações de políticos eleitos, está havendo, em muitas partes do mundo, um enorme distanciamento entre os políticos e as populações que os elegeram. Onde existe o voto distrital e é assegurado a igualdade entre um eleitor e um voto (em outras palavras, os distritos eleitorais têm o mesmo número de eleitores em todo o pais, ao contrário do que ocorre no Brasil) a experiência tem mostrado uma maior legitimidade dos processos eleitorais e os eleitores podem exercer controles mais efetivos sobre as ações de seus eleitos. No nosso país, estamos longe de termos processos que aproximem os eleitores dos eleitos. De fato, os políticos fazem todo o possível para não precisar prestar conta de seus atos e ações aos eleitores. Os famosos fundos eleitorais distribuídos aos partidos garantem aos políticos as chances de serem eleitos recorrendo somente a instrumentos de mídias e a “marketeiros”, sem terem que prestar contas aos eleitores.

Como a experiência mostrou ao mundo que a alocação de recursos primários produz resultados muito superiores quando feita pela iniciativa privada do que por escritórios públicos burocratizados, a forma capitalista – ou de mercado – de produção de bens e serviços tornou-se, praticamente, hegemônica[1] em todos os continentes. Desta forma, as esquerdas estão se apegando mais ao controle político dos respectivos regimes admitindo, de fato, que a forma capitalista de produção de bens e serviços é superior na produção de riquezas. Novamente, nossa experiência é pobre, também, em permitir que a alocação dos recursos produtivos da sociedade seja feita segundo o ideal liberal da competição baseada na meritocracia econômica. Nossa história recente de escolha dos chamados “campeões nacionais” pelo governo, gerou inúmeras perdas sociais de qualidade de vida – causadas pela corrupção e ineficiências produtivas – para a sofrida população brasileira.

Por fim, o debate parlamentar e acadêmico entre as visões liberais e de esquerda tendem a produzir soluções positivas para a sociedade, desde que feito em ambientes de legítima representatividade democrática sob o controle, o mais direto possível, dos eleitores. Este debate entre visões alternativas é fundamental para a superação da profunda chaga que a desigualdade entre classes impõe ao corpo social brasileiro. Como indicado por Roberto da Matta em artigo recentemente publicado:  

Não é mais possível manter um inferno jurídico para os pobres e os comuns e um purgatório de regalias para os que estavam (e continuam estando) acima da lei. A luta hoje é como controlar o purgatório jurídico fiador da desigualdade[2].

O parlamento brasileiro precisa se depurar em sua representatividade para produzir um arcabouço legal que melhore as condições de vida de toda a população e não permita a manutenção de perversos privilégios que subgrupos que têm se apoderado dos governos insistem em continuar viabilizando.

 

[1] As notáveis exceções são Cuba, Coreia do Norte e Venezuela, países que estão, literalmente, em situações de penúria econômica, com as consequentes baixas qualidade de vida de suas populações.

[2] Roberto DaMatta, “Acabar com a Esquerda”? O Estado de São Paulo, 09 de setembro de 2020

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A DISTRIBUIÇÃO DA RENDA E O CONSUMO DE ALIMENTOS.

Desde a década dos trinta do século passado, muitas políticas públicas do Brasil foram orientadas no sentido de estimular a migração das pessoas do campo para as áreas urbanas – urbanização – e para a extração de recursos monetários do campo para financiar a construção de um forte parque industrial no país – industrialização. Desde então, se difundiu na sociedade brasileira o conceito econômico-político-social segundo o qual só a transformação do Brasil de uma sociedade agrária em uma sociedade urbanizada e industrializada asseguraria a modernização e o desenvolvimento do país[1]. O processo de extração dos recursos humanos e financeiros do campo para financiar a urbanização e industrialização do país foi consistentemente conduzido por diferentes governos até o final da década dos anos setenta quando o processo teve que ser interrompido. Depois de muitas décadas de penalização, a performance da maior parte das unidades produtivas da agricultura estava muito ruim e com rendas muito baixas.

As duas principais políticas desenhadas para evitar o desabastecimento resultante da baixa performance da agricultura – preços mínimos e créditos subsidiados – acabaram por dicotomizar o setor, criando um pequeno grupo de empresários rurais eficientes e mais capitalizados e deixando um enorme contingente de produtores com baixos estoques de capitais empresariais na agricultura de sobrevivência. Some-se a este contingente de famílias pobres, a enorme fração da população em geral que foi penalizada pelo uso exaustivo da política de taxação inflacionária, fortemente utilizada no período e nos quinze anos seguintes, até 1994, com a implantação do Plano Real. A taxação inflacionária é, e foi, extremamente perversa porque promove(eu) enorme concentração de renda na população. As camadas de renda mais alta tem alternativas de aplicações e usos de suas rendas, de forma a manter e/ou fazer crescer seus valores, enquanto os pobres vêm seus parcos recursos serem comidos pelas perdas dos valores de compra da moeda. Desta forma, o país experimentou uma enorme concentração das rendas auferidas pelas diferentes camadas da população.

Enquanto os processos descritos como dos tempos de concentração das rendas duraram 65 anos, desde 1930, o país experimentou poucas iniciativas de políticas públicas destinadas a reduzir o enorme diferencial das rendas auferidas resultantes entre as diferentes camadas da população. Três políticas merecem, a nosso ver, destaque no processo inverso de descontração das rendas: (i) a criação e implantação efetiva dos benefícios do Funrural, iniciados em 1973 e expandidos em 1988; (ii) o controle do processo inflacionário da economia, iniciado em 1994; e (iii) a criação do sistema de bolsas para famílias pobres, criada inicialmente como bolsa educação[2], em Campinas, SP, tornado nacional no governo FHC e fortemente expandido nos governos Lula-Dilma.

A partir de1973, após 40 anos de discriminação contra os trabalhadores do campo[3], alguns benefícios da seguridade social – ½ salário mínimo de aposentadoria e acesso a serviço de saúde – foram, finalmente, estendidos à população rural do país. A discriminação foi reduzida com a correção das aposentadorias rurais para 1(um) salário mínimo, garantidos pela Constituição de 1988. Os impactos da implementação destas políticas de seguridade social no campo foram enormes, uma vez que permitiram às famílias monoparentais[4] mudarem-se, ou retornarem, para a casa de seus pais aposentados, desfrutando, consequentemente, de um mínimo de renda monetária. Os dados mostram uma significativa redução nos índices de mortalidade infantil nas áreas rurais assoladas por problemas de secas recorrentes.

O controle do processo inflacionário iniciado em 1994 foi, provavelmente, a principal política de desconcentração da renda da população brasileira. Por longos períodos, os sucessivos governos ofereciam privilégios para determinadas camadas da população e mandavam a conta para os pobres pagarem na forma de taxação inflacionária. A taxação inflacionária é a mais regressivas das formas de taxação; os pobres são as suas principais vítimas. A maior perversidade do processo ocorreu dos anos 1930 até 1988; neste período, a conta das políticas públicas discricionárias – que favoreciam determinadas classes populacionais, especialmente as do funcionalismo público – eram mandadas para os pobres pagarem, via inflação, e a estes mesmos pobres era negado o direito de manifestarem politicamente, pelo voto, sua insatisfação. Com a diminuição deste processo iníquo de taxação inflacionária, as populações mais pobres do país tiveram uma elevação sensível nos seus níveis de renda real refletidos no grande aumento pela procura por alimentos, especialmente de carnes e derivados de leite, logo após 1995.

 Desde a criação e expansão dos programas de transferência direta de renda para famílias pobres, uma parte importante da procura por alimentos da chamada cesta básica das famílias de mais baixa renda tem sido mantida devido a estas políticas. Ela ficou evidente com o aumento na procura por itens alimentares que garantiram o consumo daquelas famílias no período altamente recessivo que se seguiu à disseminação no Brasil do Covid-19. Apesar da queda acentuada no ritmo de crescimento da economia do país, a procura doméstica por alimentos manteve-se firme, suportando, inclusive os aumentos associados ao alinhamento dos preços internos aos internacionais. Infelizmente, existem limites que a economia consegue suportar para a manutenção e/ou crescimento no volume destas transferências. Decisões políticas de difícil escolha e implantação terão que ser tomadas pela sociedade brasileira.  

 

[1] O processo está descrito em PERES, Fernando C. “A Propriedade Familiar e a Pesquisa Agropecuária”, pgs. 415-438, In PATERNIANI, Ernesto (Ed.Técnico) Ciência, Agricultura e Sociedade. Brasília: Embrapa Informação Tecnológica, 2006.

[2] Governo municipal de Jose Roberto Magalhães Teixeira.

[3] O IAP – Instituto de Aposentadoria e Pensão – IAPM (dos marítimos, criado em 1933), foi o primeiro de uma série de 16 IAPs – IAPC (comerciários), IAPI (industriários), IAPB (bancários), etc – criados por Getúlio Vargas,  ofereciam aos trabalhadores urbanos da economia os benefícios de aposentadoria, assistência de saúde e assistência habitacional. Só 40 anos depois os benefícios da previdência social foram parcialmente estendidos aos trabalhadores rurais do país.

[4] Famílias de regiões pobres formadas, em geral, pela mãe e filhos, uma vez que os pais deixam o campo e migram para áreas urbanas à procura de melhores rendas. O padrão indica que inicialmente ele envia parte das suas rendas para a família deixada no campo, mas, com o passar do tempo, tende a constituir nova família e abandona a mãe com os filhos.

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O CAMINHO QUE ESCOLHEMOS

Em artigo recente que reflete a visão de um dos mais brilhantes economistas do país – Affonso Celso Pastore – ele discute as políticas dos Estados Unidos, da Europa e do Brasil no enfrentamento da crise econômica e sanitária causada pelo Covid-19. O artigo, publicado no O Estado de São Paulo, aponta o fato de termos seguido as orientações políticas americanas, ao contrário das europeias, e termina com o curto parágrafo que reproduzimos com breve enxerto nosso, colocado entre […]:

“Uma proeza, maximizamos os dois custos [ele se refere ao (i) custo fiscal do aumento da relação Dívida/PIB e (ii) a criação de uma bolha no mercado de ações] ao adotar um modelo que busca, apenas, viabilizar a reeleição do presidente. Melhor seria termos aprendido com a história dos países de sucesso, que priorizam o bem comum, como fizeram os europeus”. (Estadão, 30/08/2020)

Os governos executivos federais dos USA e do Brasil estão, atualmente, ocupados por populistas que souberam se aproveitar de conjunturas específicas nos seus respectivos países – a redução relativa da qualidade de vida de uma classe média despreparada, em sua competência, para a concorrência derivada da globalização das economias, nos USA, e o perigo da permanência no poder executivo de um partido altamente corrupto, no Brasil, – e têm declarado suas afinidades políticas. Por que os dois países têm governos populistas, apesar de serem profundamente diferentes em suas organizações políticas e no grau de educação de suas populações?

A baixa competência do capital humano brasileiro – conhecimento, habilidade, que é a capacidade de transformar o conhecimento em trabalho e atitude – tem sido mensurada em inúmeras pesquisas comparativas entre países. Além da baixa competência, as rendas da população e o arcabouço legal e institucional brasileiro aumentam a insegurança das pessoas no respeito às suas liberdades constitutivas e as instrumentais. A escala das hierarquias de Maslow, mostrada na chamada Pirâmide de Maslow, ajuda a entender as limitações de nossa população na sua compreensão e atuação política. Aquele famoso psicólogo sugeriu a divisão das necessidades humanas em cinco classes de acordo com as preferências de satisfação de cada classe. Como mostrado na figura, à classe mais primária, ou elementar, de necessidades ele denomina de fisiológica. Nela estão as necessidades de comida, respiração, sexo, etc, que precisam ser, pelo menos parcialmente, satisfeitas para que a classe seguinte – segurança – ocupe o espaço das preocupações dos indivíduos. De maneira semelhante, as três classes mais altas só se transformam em necessidades efetivas se as mais baixas – que estão em classes inferiores na pirâmide – são, pelo menos, parcialmente satisfeitas.

Como pode ser visto na Pirâmide de Maslow, preocupações e envolvimento em ações corretoras sobre corrupção pública e legitimidade de representação política serão dificilmente priorizadas por uma vasta faixa da população brasileira que se encontra, por sua baixa renda e pouco conhecimento formal, em classes que correspondem às mais baixas da hierarquia sugerida por Maslow. Isto os transforma em público preferencial para responder a apelos de populistas. Por isto, também, o aprimoramento da educação brasileira dificilmente tem sido considerado prioritário pela maioria de nossos políticos.

 

Os USA têm uma invejável organização política, com excelente representatividade popular, assegurada pelo sistema de voto distrital com recall e pela realização de eleições bianuais para sua Câmara de Deputados e parte do Senado e incontáveis consultas diretas nas eleições, às populações, na implementação de políticas públicas. Este sistema garante o controle, pela população, de muitas ações e decisões políticas. No entanto, também naquele país, as chefias dos executivos, tanto a federal quanto as estaduais, são mais difíceis de serem controladas pela população, pelo fato dos constituintes estarem muito mais dispersos e em grandes populações. As estratégias de marketing e de uso de instrumentos de mídia têm um papel predominante nas escolhas dos seus titulares, o que facilita a eleição de populistas bem assessorados – pelos famosos marketeiros – no uso daqueles recursos de comunicação. Este fato está acontecendo em muitas outras partes do mundo desvirtuando a representatividade de sistemas presidencialistas, como o americano. A sorte deles vem do fato de que lá – nos USA – o congresso eleito com maior representatividade pode realmente controlar, ou, às vezes, impedir o chefe do executivo de causar tantos malefícios à nação.

No Brasil, o sistema de representação política é precário em todos os níveis. Tanto as Câmaras de Deputados quanto o Senado Nacional têm seus ocupantes eleitos em grandes pleitos onde é altamente diluída a interação mais próxima da população com os eleitos. De fato, o controle das ações dos eleitos pelos eleitores é sistemática e constantemente dificultado pela organização do nosso sistema eleitoral. O resultado é que poucos se lembram em que partido e, mesmo, em que candidato votou na última eleição para as câmaras de deputados. O pior é que mesmo aquele que se lembra do nome do candidato em quem votou acabou elegendo terceiros sobre os quais sabe muito pouco. Como insiste o importante jornalista e estudioso de ciência política, Fernão Lara Mesquita, só o aperfeiçoamento do processo eleitoral brasileiro com a incorporação do voto distrital pode melhorar o controle pela população das ações dos políticos. Embora tardiamente, até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso[1] acabou por admitir que a introdução de alguma forma de voto distrital é fundamental para o aperfeiçoamento de nossos processos democráticos. Só assim, teremos alguma chance de nossos políticos priorizarem o bem comum em suas ações.     

 

[1] Fernando H. Cardoso. “Reeleição e Crises”. O Estado de São Paulo. 06/09/2020

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BRASIL: TERRAS CONSTITUCIONALMENTE IMPRODUTIVAS?

O desconhecimento por parte da maioria dos legisladores brasileiros que elaborou a Constituição de 1988 e, principalmente, que aprovou o Código Civil de 2002, permitiu a ocorrência de problemas que têm custado muitas ineficiências à nossa agricultura, causando prejuízos ao funcionamento harmônico da sociedade e, consequentemente, à capacidade de consumo da população do país. Trata-se da introdução, naqueles documentos legais, dos conceitos de função social da propriedade (da terra), em particular, e da função social dos contratos, em geral. Embora o problema seja menor no caso da Constituição Federal, uma vez que ela explicita o que deve ser entendido como as condições que caracterizam o descumprimento da função social da propriedade rural, as suas cláusulas abertas[1], principalmente as do Código Civil, do que seria o cumprimento da função social dos contratos, têm trazido muita insegurança jurídica, tanto à agricultura, quanto aos demais setores da economia.

Constitucionalmente, o não cumprimento da função social da propriedade pode acarretar, entre outras penalidades impostas ao proprietário, sua desapropriação para fins de reforma agrária. A Carta Magna define o não cumprimento da função social da propriedade rural quando, em seu uso, pode ser observada uma ou mais das seguintes condições: (i) a utilização dos seus recursos naturais com o uso de processos que não preservam adequadamente o meio ambiente; (ii) a não observância da legislação trabalhista nas relações de produção da propriedade com seus recursos humanos; e (iii) a não utilização mínima do potencial produtivo das terras da propriedade. Esta última condição, diretamente relacionada à produtividade das áreas foi a principal justificativa para a maior parte das desapropriações ocorridas desde meados dos anos noventa do Século XX, período em que foram fortemente expandidas as ações de desapropriação e de assentamentos rurais, também chamadas de ações de Reforma Agrária.

Com exceção do estímulo ao uso de processos adequados de preservação dos recursos naturais, as duas outras exigências para cumprimento constitucional da função social da propriedade – utilização mínima do potencial produtivo da terra e adequação às normas da legislação trabalhista – causam, possivelmente, mais malefícios que benefícios à sociedade brasileira. As exigências da legislação trabalhista causam mais conflitos do que servem para harmonizar as relações de trabalho na agricultura. Baseada na Consolidação das Leis do Trabalho – CLT, a nossa legislação trabalhista sempre ignorou as exigências específicas das condições de produção na agricultura, especialmente as necessidades de horários, deslocamentos e concentração temporal de horas trabalhadas. Dificilmente as normas pensadas para as atividades de trabalho em escritórios, chão de fábrica e comércio nas cidades podem e devem ser utilizadas em culturas ou atividades realizadas a céu aberto e sujeitas a intempéries que variam com as estações do ano. Apenas recentemente algumas normas trabalhistas da antiga CLT foram objeto de aprimoramentos e, consequentemente, têm diminuído as tensões entre o capital e o trabalho no agro e na sociedade.

O problema relacionado à definição do que seria o uso mínimo adequado dos recursos naturais de uma propriedade se encontra na adoção, quase sempre, do critério de utilização média da terra. Quando são fixados os índices mínimos de utilização da terra, como, por exemplo, o número mínimo de suporte de unidades animais (UAs) por ha de pastagem, a produtividade mínima das lavouras, ou outros critérios similares, os técnicos responsáveis pela fixação dos valores limites tendem a utilizar parâmetros médios regionais como valores exigíveis para sua consideração como adequados. Esta forma de fixação de uso mínimo da terra, como condição constitucional para definir a propriedade como produtiva leva, se correta e recorrentemente aplicada, a considerar todas as propriedades como improdutivas.

Um exemplo pode ajudar no entendimento de como o uso de valores médios nos cálculos dos requerimentos mínimos de utilização das terras implica sérias distorções nos objetivos da política. Considere-se, por exemplo, o caso da pecuária de corte, uma das atividades mais visadas pelos defensores das desapropriações. Neste caso, a mensuração da utilização adequada da terra é feita com o auxílio do conceito de uma unidade animal (UA), definida como a capacidade de suporte de equivalentes aos requerimentos de pastagem de uma vaca com peso de 450 kg. Usando o conceito, uma novilha de dois anos é equivalente a 0,65 UA, que equivale ao consumo de um animal com menor peso e menos exigências nutricionais que deverão ser fornecidas pelas pastagens. Pela conversão de todos os animais aos seus equivalentes UAs pode-se estimar o grau de uso das pastagens de uma propriedade. Como o uso de valores médios leva ao problema mencionado?

Para cada uma das mais de 500 sub-regiões produtivas em que o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas – divide o país, os técnicos do INCRA calculam valores mínimos em UA/ha que as propriedades devem apresentar para serem consideradas produtivas. Como mencionado, o problema surge quando utilizam valores médios regionais para estabelecer os valores mínimos exigidos[2]. À época do estabelecimento dos últimos valores limites, isto levou o Sr. Raul Jungman, então Ministro do Desenvolvimento Agrário do Brasil, a anunciar pelas TVs que o INCRA tinha encontrado um índice de 50% de sub-utilização das terras de pastagens no Brasil. De fato, a única coisa que ele anunciou foi que seus técnicos não tinham errado nas contas que resultaram naquele índice. Quando se usam valores médios regionais, no agregado resultante de grandes números de regiões, o resultado tinha, tautologicamente, que indicar 50% de propriedades improdutivas[3]. Se as improdutivas fossem desapropriadas e, mais uma vez, o critério fosse utilizado nas propriedades restantes, ele, novamente, indicaria que 50% eram improdutivas e o processo continuaria até que todas as propriedades fossem assim classificadas. Fica para o leitor o exercício de explicar como a agricultura tropical mais eficiente do mundo tem todas suas terras subutilizadas segundo o critério constitucional do país, como definido pelo INCRA!

 

[1] Cláusulas não claramente definidas nos textos legais e deixadas, portanto, a ter sua conceitualização e utilização prática aberta a visões alternativas dos aplicadores do Direito.

[2] O leitor deve notar que dificilmente os técnicos de uma região terão condições de fixar valores muito diferentes dos valores médios locais porque, além da capacidade de lotação das pastagens indicadas em experimentos agronômicos, valores monetários e inúmeros outros custos e preços dos produtos entram no cálculo dos valores econômicos relevantes. Por isso, os técnicos tendem a fixar os valores mínimos do índice em parâmetros próximos aos médios observados localmente.

[3] Se o número de regiões é grande, um teorema da Estatística – Teorema do Limite Central – indica que independentemente das distribuições probabilísticas regionais, a distribuição estatística do agregado tende para a normalidade, com média igual à mediana. Como a mediana divide o espaço em duas partes iguais, 50% das observações estarão, necessariamente, abaixo da média.

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